terça-feira, 17 de julho de 2012

À Senhora do Rosário

Do Rosário,
os teus mistérios,
Senhora-mãe de todas minhas,
de todas elas,
todas-tolas,
as senzalas.

Nos gozozos, o anúncio
de cadeias se rompendo
e o hímen dos meus desejos,
rebelado,
ventre-livre,
liberdade,
(des-)acenos.

Dolorosos, ó Senhora,
pelourinhos,
muitas correntes,
meu sangue-negro,
meu sangue-forte,
meu sangue-sangue,
meu sangue-raça,
meu sangue-vida,
mais do que lava
a Vila grande
- que não me cabe -
a Vila Rica.

E que dizer, Senhora Santa ,
daquela glória,
miragem minha,
daquele sonho negro forjado,
daqueles sulcos nas costas nuas,
das minhas cruas carnes dilaceradas?

Longe daqui, Senhora santa,
coqueiros bailam,
minha terra clama.
Minha glória é luta,
soa meu grito
- mil liberdades -
ainda que longe,
ainda que tarde.

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente
Ouro Preto, 1997
- escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário

14 comentários:

Guaraciaba Perides disse...

Belo poema...como lamento de uma raça qua ainda ecoa pelos rincões do Brasil.
Um abraço

Arnoldo Pimentel disse...

Um poema intenso, forte.Existem realidades que nunca serão esquecidas, injustiças sociais que ecoam pelos céus.Parabéns.

Marlon disse...

Me lembra Castro Alves professor, o mesmo lamento, é incrivelmente atual, desde a época dele parece que nada mudou né.

Osvaldo Rene Alberto disse...

Me gustaría comentarte Moises, pero no puedo traducir.
Un abrazo

Nenzito (José Maria Gonçalves) disse...

Um poema forte como nossa história e as dores de nossa gente.

Márden Moreira de Carvalho.... disse...

A grandeza de nossas lutas, as marcas da opressão humana e seu grito de liberdade...

Moisés Augusto Gonçalves disse...

Apropriando-me de Maiakoviski: "Carregamos um passado de escravos dentro de nós."

Eloah disse...

Lindo poema! Buscastes trazer nas palavras o sentimento profundo e o grito de liberdade de um povo injustiçado e apartado de sua terra natal.
Lindo! Parabéns.Bjs Eloah

Arnoldo Pimentel disse...

Bom dia, se tiver um tempinho visite o blog do grupo de poetas que participo em Belford Roxo RJ, o Gambiarra Profana, e veja um trecho de nossa performance no Teatro Sesc Nova Iguaçu RJ, leia também o texto e se puder dê sua opinião no comentário, sua visita é muito importante pra nós. Desde já agradeço o carinho.
Link abaixo:

http://gambiarraprofana.blogspot.com.br/2012/07/malditas-belezas.html

Arnoldo Pimentel

Lapislazuli disse...

Muy intensas letras
Un abrazo

Graça Pereira disse...

Um poema que é oração mas também grito de revolta de actos que marcaram a carne e que eu assisti também...do outro lado do mundo!
Beijo
Graça

MA FERREIRA disse...

Me curvo diante da sua arte de poetar! amei te ler..

Somos todos filhos da mâe Africa..

beijos e os meus mais sinceros parabéns!!

Márden Moreira de Carvalho.... disse...

Temos uma dívida histórica com os afro-ascendentes.

Marísia disse...

ABRAÇOS E PARABÉNS
BELISSÍMAS SUAS PAGINAS