quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Rodin


Aos homens e mulheres,

que se despiram das máscaras que vestimos para suportar a vida, e ousam dizer um não sempre renovado à imagem imposta pela mediocridade que os cerca e condena às sombras, o eu real - o eu mesmo -, feito de carne e osso, faminto de tesão e fantasia, talhado dentre as pedras que correm no leito da caminhada; águas de muitas margens e faces ocultas, machucadas pelas pedradas atiradas pela antepenúltima mentira. Escândalo, no reino da hipocrisia! Impertinência! Sem licenças ou imprimatur...

Aos que não se venderam por trinta moedas aos podres poderes, sabedores de suas tramas, sua lama e armadilhas; não mendigaram suas benesses e status, nem se prostraram diante do altar do vil metal;


Aos que tem a ousadia de extrair da longa caminhada a grande lição: conhecer é sentir bem lá dentro as agruras e também os beijos do estar aqui, saborear os iguais no apetite dos sonhos de mãos entrelaçadas e passos largos, ninados pelas causas que não conhecem a morte; 


Aos que atrevidamente decifram os códigos e rituais vigentes, grávidos de vazios e horizontes; que levantam os véus de sentidos que encobrem verdades não-ditas, que moldam o viver;


Aos que incessantemente buscam desvendar os segredos e interditos da ordem imposta, ainda que para virá-los ao avesso;

Aos que não se enquadram na moldura e, desnudos das fachadas pintadas de medo - clausura dos que temem voltar-se para a boca da caverna e sentir seu calor e clarão -, (re-)desenham formas e sentidos outros, aqueles que não sufocam o poeta, nem os corações em festa de alforria, ao romper a milésima algema e destronar as correntes que abortam o canto e o desabrochar da flor;

Enfim, aos que descobriram nas páginas da vida rios caudalosos de liberdade e o sentido da palavra por excelência: DIGNIDADE! E por isso mesmo, se fizeram resistência e ternura: Gente no calor das lutas!


Por essa grandeza, minhas SAUDAÇÕES!

Moisés Augusto Gonçalves, Postfacio in Horizontes da luta social - os sujeitos da política (2010)

15 comentários:

Juliana Dias disse...

Conseguiu transformar a dura realidade em poesia. Muito bom!

Marly Bastos disse...

Quase eu,
quase minha vida,
quase nós todos.
Muito bom seu texto poético.
Beijokas doces

Moisés Augusto Gonçalves disse...

É importante compartilhar outros horizontes de sentido...

Nenzito (José Maria Gonçalves) disse...

Isso é que chamo de um norte de dignidade. Tô junto.

Inma disse...

Uma marabilla de entrada, os meus parabéns.
Beijos

Guaraciaba Perides disse...

Por tudo que está escrito, assino embaixo.
Um abraço

Mercedes Vendramini disse...

Hermoso escrito! Iluminado por esas preciosas manos de Rodin. Hay mucha sensibilidad en todo lo tuyo.

Saludos cariñosos!

Baby disse...

Aos que atravessam a vida vestidos de liberdade, poesia e verdade, eu ergo a minha taça!

Abraço.

Moisés Augusto Gonçalves disse...

Brindemos à dignidade que dá sentido
a todas as nossas lutas e sonhos!

c c Rider disse...

Impertinência! Sem licenças ou imprimatur...

La arrogancia de Caravaggio es comprensible.

Un cálido abrazo.

Eloah disse...

Belo texto!Um grito de amor a vida. Cada vez mais difícil ver rostos desnudos e verdadeiros.Parabéns!
Felicidades, sempre.Bjs Eloah

Anônimo disse...

Belo.

Jairo Jr

Berzé disse...

Vc faz valer a pena voltar a navegar.Viver não é preciso.
Abração velho amigo!
Berzé

Carlos Augusto Pereyra Martínez disse...

Cierto, cuánta dignidad hace falta en los seres humanos. Enh estos momentos es el mayor valor de la vida. Dignidad es no dejarse comprar, votar a conciencia, tener v ocación de servicio...UN abrazo. carlos

Patrícia Fonseca disse...

Querido, Moisés!
Gostando muito de conhecer teus pensamentos e tua poesia.
Sigo-te com satisfação!
Continue nos agraciando com tanta nobreza e hombridade.
Abraços.

Patrícia Fonseca
http://blogdaperegrina.blogspot.com/