quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Fragmento I


O autor, aos 04 anos 

Cheguei aos cinquenta, 
vivi muitas vidas.
Visito o coreto da praça
 e rebobino os traçados que me fizeram.
São de carne crua as marcas cravadas nas trilhas sinuosas
dos muitos ais de que me faço.

Pego com as mãos molhadas de memórias
as carências e encantos da infância-severina.
Mãe nordestina, rasgando brasis em paus-de-arara.
Pai, matuto mineiro, inteligência forjada nas dores,
 calejado de estradas.

Saboreei fomes degustadas à força
e a indignação vomitando sobre-mesas.
Espantou-me a miséria sorvida aos goles.
Encantou-me um vir-a-ser cravejado de lutas,
a gabiroba, as flores do campo,
a goiaba do mato e as primeiras letras.
Foram poucos os “troca-trocas”,
muitos os desejos que brincaram reprimidos em mim.

Pari trocados arrancados da venda do esterco,
da lenha despida de gravetos,
da verdura, do ferro-velho,
dos pés-de-moleque, doces e picolés.

Deixou-me a infância a marca
indelével da luta cotidiana pelo pão e seus saberes,
a vontade aguerrida de não ser um fracasso,
de lutar pelo humano,
ser um eterno menino a perguntar os porquês,
embalado em seu sonho de gente.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

12 comentários:

Paulo Francisco disse...

Muito bom! Muito bom mesmo.
Um abraço

José Antonio del Pozo disse...

muy bonito, que hermoso no olvidar nunca la estela de ese niño que siempre fuimos, aun con sus tristeza. Gran poema.
Saludos blogueros

Lady Jo disse...

très beau, belle journée !

Arnoldo Pimentel disse...

Muito bom seu poema, belos versos ilustrando a vida.Parabéns.

Guaraciaba Perides disse...

A vida como ela é ...com suas dores e seus encantos!Um abraço

Louisette disse...

Muito bom, Un grande abraço del Belgica

Moisés Augusto Gonçalves disse...

Como dizia Heine, "fazer das grandes dores pequenas canções"!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

um poema muito forte, belíssimo!
nas palavras uma vida contada, dores, sonhos, faltas, sobrevivência.

especial!

bom dia

Nenzito (José Maria Gonçalves) disse...

Transformar a vida em versos é a grande arte.

Berzé disse...

Sentir com muita arte:sua sina.Bela/boa sina.
Abração, Moisés!
Berzé

Márden Moreira de Carvalho disse...

Infância desafiadora...A maior escola!

Sél disse...

olá Augusto
Vim "atualizar" a leitura do seu blog e passei por esse poema em que não posso deixar de comentar.

A poesia é isso..é para tudo, sobre tudo...sobre o Mundo.
Transcreveu maravilhosamente sua infância; sempre me emociono quando leio as "batalhas" da vida de alguém (geralmente de minha geração...rsrs)porque são infâncias ricas!
Não que as "infâncias" atualmente não sejam, mas...as nossas eram melhores, mais doces (ou até que tivessem sido amargas..) mais marcantes
Tanto que geram poemas lindos como o seu

Como você mesmo disse respondendo a um comentário:"fazer das grandes dores pequenas canções"!
Muito boa a canção que vc fez ^^


E com sua liçença -que eu nem pedi rsrs - mas espero que não se oponha, peguei algo seu e está aqui (^.^)
http://vidaeverso.blogspot.com/

Abraços, tudo de bom.