terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Corpos sem beijos


Não gritei todos os meus gritos,
nem tranquei a última porta.
Lavei as escadarias de meu ontem
com leite de cabra no cio.
Esculpo amanhãs paridos das pedras,
trago-os no peito, vestidos de aurora.

Tingi de branco a flâmula parda que tremulava ao longe,
hoje ela acena outros mundos com marca de gente.
Persigo as sombras que ficaram do encontro sem rostos
e os pedaços do tesão que, de tão grande,
consumiu-se em prantos.

São tão frágeis os nós de nossas amarras
e tão tênues os fios que tecem essa teia de corpos sem beijos.
São tão fortes essas dores que riem de mim,
São tão minhas essas mãos calejadas de toques contidos,
esse ar rarefeito de lábios nos lábios.
Sentinelas de olhos prostrados,
essa insônia que me dorme em teu leito...

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente

6 comentários:

Luís Coelho disse...

Olá Moisés
Os teus poemas são material pesado que nem sempre se conseguem perceber.

Nestes beijos sem corpos, trocando as palavras, que ontem ouviram os gritos soltos que desciam as escadas.

Um abraço vestido de aurora em dias de luz.

Ari disse...

"Eu viajei apenas um coração de trilhas, que são a única maneira de ir, eu encontro digno do desafio é percorrer o comprimento do caminho inteiro. Eles estão se desviando, eu vejo tudo ao meu redor, completamente calmo."
Don Juan / Carlos Castaneda

armalu disse...

Vim conhecer os seus blogs, e agradecer sua visita.Peço desculpa de só hoje o fazer.
Mas estou a gostar muito e vou seguir.
Tenha um bom fim de semana que se aproxima.
com muito amor e luz em sua vida.

palavrasdeumnovomundo disse...

Olá Moisés, vim agradecer a honra que me proporcionou ao visitar meu mundinho e me deparo com palavras de explícita beleza. Parabéns! Estarei lhe acompanhando.
Abraço fraterno. Rosa

Shirley disse...

Lindo esse poema, do começo ao fim. Parabéns, Moisés. Beijos!

► JOTA ENE ◄ disse...

ººº
Interessante seu blog e poesia...