terça-feira, 25 de maio de 2010

Fragmento III

São de homens e de falos enrijecidos
as memórias da primeira noite.
Também de mea culpas plantados em mim
e seus medos.
A casa-paroquial foi abrigo e testemunha
da cópula primeira e seus tremores.
Prazer acordado remorsos.
Pássaro criado em cativeiro,
ensaiei o primeiro vôo.
Provei o fruto proibido em lugar santo.
Recebi seus anátemas e convites.

Masculino e feminino fundiram-se em meu peito.
Vivi amores que ousaram dizer o seu nome
e a solidão das madrugadas.
Gosto de homens e de seus membros,
enxertados de sangue, esperma e afeto.
Ternura nos olhos e dedos.
Corpos sem vergonhas,
alforriados dos guetos,
arco-íris acenando em praça pública
seu orgulho homoerótico.
Transfuga – que sou –
das prisões dos desejos lamuriantes
e seus interditos.

Moisés Augusto, in Fragmentos impertinentes

Um comentário:

margareth disse...

Ave, palavra
corte profundo de navalha na carne sempre dura da memória, seja pela aspereza da lembrança ou pela certeza do que se perdeu.
Grande Moisa...
Margareth