quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Infância

Passei dos quarenta, vivi muitas vidas.
Visito o coreto da praça e rebobino os traçados que me fizeram.
São de carne crua as marcas cravadas nas trilhas sinuosas
dos muitos ais de que me faço.
Pego com as mãos molhadas de memórias
as carências e encantos da infância-severina.
Mãe nordestina, rasgando brasis em paus-de-arara.
Pai, matuto mineiro, inteligência forjada nas dores, calejado de estradas.
Saboreei fomes degustadas à força
e a indignação vomitando sobre-mesas.
Espantou-me a miséria sorvida aos goles.
Encantou-me um vir-a-ser cravejado de lutas,
a gabiroba, as flores do campo,
a goiaba do mato e as primeiras letras.
Foram poucos os “troca-trocas”,
muitos os desejos que brincaram reprimidos em mim.
Pari trocados arrancados da venda do esterco,
da lenha despida de gravetos,
da verdura, do ferro-velho,
dos pés-de-moleque, doces e picolés.
Deixou-me a infância a marca
indelével da luta cotidiana pelo pão e seus saberes,
a vontade aguerrida de não ser um fracasso,
de lutar pelo humano,
ser um eterno menino a perguntar os porquês,
embalado em seu sonho de gente.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

4 comentários:

Anônimo disse...

É surpreendente como em tão poucas palavras conseguimos viajar por sua infância. Chego a ficar emocionada e admirada, como é você consegue utilizar as palavras de maneira tão sublime e resumida.`
Parabéns pelo artista, pela alma sensível, pelo cientista pesquisador.
Com toda admiração!
Patrícia Diniz
PUC MInas em Arcos

Anônimo disse...

Oi, sobrinho. È maravilhoso viajar a bordo de suas letras, de sua arte. Tudo é lindo, mas me fixei nesta Infância, porque eu convivi um pouco com ela, e tenho um pequeno papel nesta sua fase. Nós brincamos muito: eu, você, seu irmão e irmã. Porque apesar de minha matéria sofrer a influência do tempo, meu espírito ainda consegue passear pelas paisagens infantís. Parabéns pela sensibilidade e pelo talento.

Anônimo disse...

Oi, sobrinho. È maravilhoso viajar a bordo de suas letras, de sua arte. Tudo é lindo, mas me fixei nesta Infância, porque eu convivi um pouco com ela, e tenho um pequeno papel nesta sua fase. Nós brincamos muito: eu, você, seu irmão e irmã. Porque apesar de minha matéria sofrer a influência do tempo, meu espírito ainda consegue passear pelas paisagens infantís. Parabéns pela sensibilidade e pelo talento.

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto - me permitiu uma viagem que muitas vezes tenho resistência a realizar, a viagem do tempo.
Gilberto Bedeschi