sábado, 31 de maio de 2014

Uma Historia de Amor e Fúria Completo Dublado

Suculentas

Duas suculentas montam guarda em meu escritório,
vistosas e serenas como só cabe às crianças e às plantas.
De quando em vez, passeiam pela casa
em seus vasos de parafina e pó de pedra;
Sobre dois pés em câmera lenta e mãos de seda e porcelana.

Vasos moldados por mãos de cinco dedos,
uma idéia dançante e algo mais.
O pequeno apartamento tornou-se viveiro de mudas
entoando a valsa das flores.
Jardineiro das horas livres,
estou algemado em suas folhas
e me nutro desta seiva que corre sem cronômetros
em seu caule tenro.

Podium de primores e belezas castas.
Suculentas na cor, na forma,
na seiva, na discrição verde-musgo,
num “não sei que” que me tira dos livros e devolve ao útero.
Cúmplices do verso e do reverso,
sentinelas das paixões que me governam:
o amor que quer amor, o saber que não se sacia,
o pulsar juntos ao ritmo da mesma dor.

Dialogo com meus ids e egosalter cansado de mim.
Com elas, as suculentas, o diálogo é sinfonia de flertes,
sedução do colo amigo,
repouso de pupilas e línguas cansadas.
Alguma coisa de oásis...

Moisés Augusto Gonçalves, in Ruas vazias de gente

domingo, 18 de maio de 2014

Cidadão dos mundos...

I

Carrega no alforje da vida muitas sementes,
páginas em branco no caderno de memórias
- outras tantas rasgadas nas bordas,
outras muitas rasgadas ao meio -,
um pedaço de fruta mordida de véspera,
um catálogo de nomes 
escritos até à primeira letra.
Maiúsculas. Em negrito solo.
De que não se sabe quem.
Fortes! Como cabe aos que partem, 
insistindo em ficar.

Homem de uma nota só e muitos tons,
possuído pela magia célere dos pássaros,
dos amores des(re-)feitos,
das incógnitas do daqui-a-pouco,
da terra pisada com pés de pluma,
ninada no colo com cantos de mãe.

Parto doloroso do quero-mais,
das alegrias de visita breve,
da descoberta mostrando a cabeça,
por detrás da montanha de papel machê.
Encontro marcado aos pés do ipê amarelo;
Tez desnuda,
escaldada pelo sol das tardes que se repetem.
Fardo de muitas labutas e encantamentos!

Penduradas no peito,
medalhas conquistadas no campo de batalha
contra a penúltima fome e suas primas,
as estátuas do medo,
 plantadas na curva da estrada.
Saudades do abraço de não-se-sabe-quando,
mágoas com barba por fazer,
botões em flor,
 aguardando o primeiro raio de sol.


Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

sexta-feira, 18 de abril de 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

DEDICATÓRIA


A toda lágrima que, caindo em terra árida,
faz germinar uma flor.

A todo riso que, brotando do coração,

desdobra-se nos outros.

Moisés Augusto Gonçalves, in "Ruas vazias de gente"

quarta-feira, 19 de março de 2014

Outros fragmentos...


IX

Beijei muitos chãos, clamei em vão, gritei aos céus,
fui um fiel. Nem o eco me respondeu.
Nem o frescor da brisa mansa.
O eterno dormia o sono dos justos e agendou
– para não sei quando –
a audiência com o comum dos mortais, os tais, filhos seus.
Fui santo-do-pau-ôco...

X

São de homens e de falos enrijecidos
as memórias da primeira noite.
Também de mea culpas plantados em mim
e seus medos.
A casa-paroquial foi abrigo e testemunha
da cópula primeira e seus tremores.
Prazer acordado remorsos.

XI

Pássaro criado em cativeiro, ensaiei o primeiro voo.
Provei o fruto proibido em lugar santo.
Recebi seus anátemas e convites.
Masculino e feminino fundiram-se em meu peito.

XII

Vivi amores que ousaram dizer o seu nome
e a solidão das madrugadas.
Gosto de homens e de seus membros,
enxertados de sangue, esperma e afeto.
 Ternura nos olhos e dedos.
Corpos sem vergonhas, 
alforriados dos guetos,
arco-íris acenando em praça pública seu orgulho homoerótico.
Transfuga – que sou – das prisões dos desejos lamuriantes
e seus interditos.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Liberdade...!



Voa!

Varre os ares dessa azul sem fronteiras,
umbrais dos enigmas que devoram meu peito...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Maravilhosa...!!!


"Se você chora porque o sol se pôs, as lágrimas impedirão que veja as estrelas."

Violeta Parra

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Rotas de fuga


Imagem: National Geografic

Foi no último inverno,
quando meu nome era exílio
e o frio da noite,
o refúgio desnudo de meu tronco retorcido;
a rigidez do solo,
o bálsamo de meus galhos alquebrados
pelo peso da vida
e indagações não respondidas:
as que ficaram e as que se foram,
sem despedidas.

Foi...foi sim...
nos segredos do último inverno,
com as espinhas gélidas de frio,
o coração na mão,
quando inventei rotas de fuga
e me desfiz pelas frestas...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

sábado, 25 de janeiro de 2014

À Senhora do Rosário

Do Rosário,
os teus mistérios,
Senhora-mãe de todas minhas,
de todas elas,
todas-tolas,
as senzalas.

Nos gozozos, o anúncio
de cadeias se rompendo
e o hímen dos meus desejos,
rebelado,
ventre-livre,
liberdade,
(des-)acenos.

Dolorosos, ó Senhora,
pelourinhos,
muitas correntes,
meu sangue-negro,
meu sangue-forte,
meu sangue-sangue,
meu sangue-raça,
meu sangue-vida,
mais do que lava
a Vila grande
- que não me cabe -
a Vila Rica.

E que dizer, Senhora Santa ,
daquela glória,
miragem minha,
daquele sonho negro forjado,
daqueles sulcos nas costas nuas,
das minhas cruas carnes dilaceradas?

Longe daqui, Senhora santa,
coqueiros bailam,
minha terra clama.
Minha glória é luta,
soa meu grito
- mil liberdades -
ainda que longe,
ainda que tarde.

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente
Ouro Preto, 1997
- escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Indagações

Quantos silêncios ainda faltam para a próxima fuga?
Quantas fugas ainda faltam para o próximo silêncio?
Largados nas esquinas,
até quando beijarão nossos lábios
- colados ao chão - 
utopias abortadas?

Bradará a língua ensandecida torpes palavras?
E o canto livre, sucumbirá ao vil poder?
Importa buscar na cadência das ondas
sentidos que não vivi?

De quantas pauladas se faz uma vida?
Quantos detalhes compõem o presente?

Felicidade perambula solteira?
Meu coração em vigília aguarda um simples aceno...

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Desafiador...!

Quando eu morrer… se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui  jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto. Mas temos de continuar, de continuar andando, temos de continuar.”

José Saramago, As palavras de Saramago"

domingo, 19 de janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

domingo, 5 de janeiro de 2014

 
Sou uma epígrafe no longo epílogo da vida;
Densa, forte e terna...
 
Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

sábado, 28 de dezembro de 2013

Tanta...

João Ripper
 
A minha loucura não cabe nos livros,
zomba solteira dos ids e egos;
Visita o Olimpo,
transita o nirvana;
Celebra entre lágrimas os naufrágios do amor.
A minha loucura é louca demais,
é insana;
Tem sabor de pão dormido,
é tanta...Tanta...Tanta...!

Moisés Augusto, in ruas vazias de gente

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

domingo, 22 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Fugaz...!

Não mais que uma palavra
e quase tudo se dissipa:
o vermelho escarlate das vaidades,
a tolice dos que se atolaram na mesmice,
a mecha rascunhada de preto no desenho do suicida.
De quebra,
o triunfo fugaz dos demagogos,
as promessas decantadas nos palanques,
a sordidez dos palácios e suas armadilhas,
o vazio do vazio que nada acrescenta
a não ser mais vazio...

O que fica?
A força da palavra suspensa sobre colunas de perguntas,
pronunciada sem parcimônias no dia das proibições,
persona non grata - de tão atrevida -,
seta certeira que atinge tendões de Aquiles
e flutua serena nas águas do mar que não se sabe morto.

Moisés Augusto Gonçalves, in Depois de muitas luas

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Oh! vida das perguntas desses recorrentes,
dos infindáveis trens dos incrédulos,
das cidades repletas de tolos...
 
Que há de bom nisso tudo, oh! Vida?
Que você está aqui, que existe vida e identidade,
que o poderoso jogo continua
e você pode contribuir com um verso.
 
White Whitman

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013



Quando o pássaro que mora aqui dentro,
alçar o seu canto,
abraçar a aurora,
rompendo meu peito,
escrevam em minha lápide:
Aqui jaz quem sempre lutou pelas causas que nunca morrem,
DIGNIDADE!
 
Moisés Augusto Gonçalves, in Testamento

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Paradoxal...

João Ripper
 
A sede que bebe
A fome que come
A seca que molha
A cegueira que olha
A chama que apaga
A dor que em mim sorri...
 
Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes - 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Brigadas do medo chegam a galope;
Minha gente resiste  com silêncios,
gemidos,
revoltas.
Gritam Amarildos,
bradam horizontais assembleias;
Saraus Vira-latas latindo poesia;
Catracas ruindo nas ruas;
Estação de praias onduladas de corpos
em busca de outras águas.
Liberdade-couraça,
terra sem amos,
sonhos de gentes que vencem os medos.

Moisés Augusto Gonçalves, in Tantos

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Em casa de menino de rua,
 o último a dormir apaga a lua... 

(Em um muro no centro de Belo Horizonte...) 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Fragmento XLVIII

Magritte
Próximo ao crepúsculo da vida,
sou uma pergunta sem adornos e adereços.
Sou apenas um a indagação, itinerante e apaixonada,
em busca de suas irmãs gêmeas.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

domingo, 13 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Distâncias...


Não sabia por quantas fomes tinha sido comido;
Quantas auroras não viu, entorpecido.
Apenas que foram muitas.

Fazia tempo que não saboreava um texto,
escrito à tinta e coração;
Que não tocava as faces sem as rugas das mãos,
lapidadas pelo tempo.
Fazia tempo, muito tempo...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

terça-feira, 1 de outubro de 2013

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Confiteor


Confesso.
Já faz tempo, vivo um triângulo amoroso.
Desses sem ângulos que estreitam
ou pontas que expulsam;
desses que alargam o olhar,
o tamanho da alma
e agigantam os sonhos.
Nós três:
coração,
livros,
teclado.
Sem culpas!

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

(Re-)Composição

Componho sentidos a descoberto,
a utopia despida de flores.
Costuro os retalhos dos amores já findos,
amasso a argila , dou-lhe forma,
faço-a viva de imaginações sonâmbulas.

Sopro-lhe minh’alma cravada de ais;
Arranco ervas daninhas presas ao ventre
que gritou amor sem respostas.

Cultivo cantos,
rego a semente encharcada de dúvidas,
recomponho ontens no hoje.

Moisés Augusto Gonçalves, in Nos centros de nosso oeste
(no prelo)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

‘Apanhando’ poemas

Agora eu pego um poema,
desses que a gente apanha
com  vara longa,
mãos e coração apertados,
nesses pomares da vida.

Agora eu pego um poema,
não um poema qualquer,
desses de encomenda e rimas prontas.
Estão verdes.
Os que pego têm a cor do verão passado

e a cadência inebriada de vozes.

Moisés Augusto Gonçalves, in Nos centros de nossa oeste (no prelo)

domingo, 18 de agosto de 2013

Ideias...

  
Ideias andam,
se nutrem de seivas ,
deitam raízes,
fecundam caules,
terras inóspitas...
e em disputa.

Ideias removem vidas
Carregam sonhos...

De quem são as ideias de que me faço?
São minhas as sílabas que pronuncio?
É minha a articulação de seus sentidos?
Explicações, respostas, pensamento,
são meus ou fizeram meus?

Ideias andam,
escalam montanhas,
repousam em pântanos.
Ideias libertam,
mas também enganam.

Moisés Augusto Gonçalves in Nos centros do nosso oeste (no prelo)

sábado, 17 de agosto de 2013

"Pertencer à situação é o destino natural de quem quer que seja. Mas pertencer à composição de um sujeito de verdade depende de um traçado próprio, de uma ruptura continuada".
Alain Badiou

Ofereço ao leitor meus fragmentos. Os pedaços que me fizeram possível, até o instante... A matéria que trabalho com as mãos e os fiapos do coração. Que tentei dar formato e sentidos nas muitas luas que vivi. Retalhos que costuro na tessitura da vida. Indagações, respostas provisórias e perplexidades. Um quê de escândalo e irreverências explodindo pelos poros. Impertinentes!

Faltam algumas peças em meu quebra-cabeça e outras tantas que não se encaixam. Por isso mesmo, la nave va... guiada por muitas luas...

Peregrino de muitas estradas, toquei lugares, senti gentes. Cidadãos dos mundos fora e dentro de nós. Precipícios e maravilhas interiores, visitados com intensidade, desbravados com ousadia, lidos com outras razões, as de quem já chegou aos cinqüenta... Tocha grisalha e rebelde. Paisagens tocadas com os dedos dos olhos e as digitais indeléveis do coração. Quase sempre extasiado, dopado de encantamentos e frustrações.

Cenários de muitos tons e injustiças – as que vivi em mim e nos outros - , de muitas vozes e ecos mudos, de muitos sons e possibilidades. Palco de muitos “nós” e “eus” (des-)velados.

Everests escalados sem temores; terra batida, pisada com ternura. Precipícios superados com tremores, sob o luar cândido e a brisa fria. E muitas...muitas...muitas tempestades... E os infernos que vivi...

Fortaleza esculpida na pedra bruta - fragmentada e fragmentária -, convencido de que definitivo mesmo é só a busca apaixonada e persistente; atravessada de encantamentos, coerência que não tem preço; que não se vende no balcão dos negócios; marcada de recusas às negociatas e interesses escusos. Codinome: resistência.

Luta atravessada de amores e utopias sem véus e medidas tacanhas. Batalhas travadas no dia-a-dia de tudo o que balança e respira. Peito aberto, punhos cerrados, mãos estendidas...uma “terra sem amos”...! E já que não pertenço à situação, nem me acomodo à (des-)ordem vigente, vou-me (re-) fazendo a cada instante sobre alicerces de rupturas...!

Moisés Augusto Gonçalves, Prefácio do livro Fragmentos Impertinentes

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Fragmento XXII


A quatro mãos fecundo o poema. 
É preciso mais.
Circula sangue vermelho em minha veia poética.
Quebrei as molduras.
Sou da estirpe dos que pegam o mundo
com a esquerda
- punhos cerrados -, 
e o vestem de belezas futuras,
edifícios do amanhã, que não encontro, 
mas construo.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Composição

Imagem: Pierre Verger

Componho sentidos a descoberto,
a utopia despida de flores.

Costuro os retalhos dos amores já findos,
amasso a argila, dou-lhe forma,
faço-a viva de imaginações sonâmbulas.

Sopro-lhe minh'alma cravada de ais;
Arranco ervas daninhas presas ao ventre
que gritou amor sem respostas.

Cultivo cantos,
rego a semente encharcada de dúvidas,
recomponho ontens no hoje.

Moisés Augusto Gonçalves, in Nos centros de nosso oeste (no prelo)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sentindo com Che


 Explode em mim o coração do revolucionário.
Qualquer injustiça acende a lenha
que nunca adormece em meu peito
(O sistema que mói vidas,
sabe meu nome: Resistência).

Crepita indignação,
destemor,
revolta com causa.
Por isso mesmo,
persigo a ternura e me faço couraça.

Moisés Augusto Gonçalves, in Nos centros de nosso oeste (no prelo)