segunda-feira, 20 de maio de 2013

Fragmento XXV

Esvazio dispensas e prateleiras,
é dia de faxina geral,
de levantar os tapetes.
Muitas das novidades que festejei 
são peças de museus
a falar de outros tempos.

Acumulei muitas dúvidas ao tocar a vida
e consultar meu travesseiro 
de macela e alecrim.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Imperinentes

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Rotas de fuga



Imagem: National Geografic

Foi no último inverno,
quando meu nome era exílio
e o frio da noite,
o refúgio desnudo de meu tronco retorcido;
a rigidez do solo,
o bálsamo de meus galhos alquebrados
pelo peso da vida
e indagações não respondidas:
as que ficaram e as que se foram,
sem despedidas.

Foi...foi sim...
nos segredos do último inverno,
com as espinhas gélidas de frio,
o coração na mão,
quando inventei rotas de fuga
e me desfiz pelas frestas...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fragmento LVI

Imagem: Pierre Verger

Tem dois lados o drama da vida:
O vivido e o vivido.
Tocado com as mãos.
sentido por dentro,
sua doçura e seu amargor,
pois é de mel o pão fumegante 
que salta do forno e rouba a cena.
Devorador de apetites.
Palavra comida em jejuns e dietas,
silhueta contornada nas sombras.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Não mais que de repente...


Chegou sem avisos ou licenças,
solene e sorrateira, 
como um filete d'água
escorrendo pelas frestas das pedras nuas.
Molhou meus silêncios,
contorceu os meus galhos,
estremeceu as raízes de meus sonhos.
Indagou minha canção,
acariciou o dorso do meu avesso.

De repente se foi,
ecoando os meus gritos...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

domingo, 21 de abril de 2013

Fragmento LXXI


Narciso : Caravaggio

Narciso afogou-se incontáveis vezes 
nos rios de minha lida cotidiana.
Nos cacos espelhados,
ressurgiu outras tantas,
vulcão ensimesmado nos outros.
Alter erguendo a morada dos homens
... e de tudo o que respira.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

quarta-feira, 17 de abril de 2013

De profundis...


Imagem: Paul Kuchisnki

Desço aos abismos de mim mesmo
em busca do nome que tenho;
Do outro lado de mim,
o avesso de minhas máscaras e outros disfarces,
o reverso das pupilas repletas de espelhos,
quem sabe também das notas de meu canto,
desafinadas nos “consertos” da vida..

Fogueira de degraus quebrados,
os que acendi para iluminar meus fantasmas e demônios,
os muitos eus que moram em mim,
 aqui junto ao que se sentia um só;
Solidão regada a muitos,
Mergulho oxigenado de encontros,
confronto com as perguntas que não me fiz,
as que devem ser feitas ainda que tardia.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

terça-feira, 9 de abril de 2013

Fragmento LV



Minhas palavras têm a textura de  veludo, 
lavado a seco,
de fralda enxuta ao sol de meio-dia,
banhada nas águas turvas da curva do rio;
odor de peixe fisgado na ante-véspera,
carne seca pendurada no alpendre da venda.
Devoradora de apetites.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

domingo, 7 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tecelão de utopias....


Sou um aprendiz, tecelão das utopias próximas do longe. Talvez o único mérito que tenha seja o de cavalgar na ousadia e partilhar indagações na cadência do verso desnudo da armadura da métrica e da clausura da rima, vestido no traje de gala da busca;

Da palavra que canta a chuva que molha desejos, dá sabor à braquiara e vigor ao Guzerá, boi esguio e formoso, sempre a nos olhar, como quem faz as perguntas que ainda não foram feitas;

A palavra que dança às margens do Córrego do Onça e se banha, se quebra e corre, nas pedras do Lajeado que há pouco descobri em minhas andanças, na inseparável companhia de meu caderno de anotações e minha “sozinhiidão”, permita-me Guimarães;

A palavra que indaga a esse silêncio que vem de longe, os porquês da injustiça e da opressão, o quando do canto livre, o como esculpir amanhãs paridos das pedras e carregá-los no peito, vestidos de aurora;

A interrogação doída que se espanta com o despedaçar da flor e a usurpação de nossos jardins;

A palavra que se recusa a permanecer sepulta no peito e, guerreira, desata os nós na garganta;

A palavra que ainda não gritou todos os seus gritos e se recusa a fechar a última porta;

A que espreita pelas frestas das Minas, repousa nas montanhas de suas Gerais e se esconde na boca da mata à espera da onça e da lua...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes
Recorte do discurso de posse na Academia Cordisburguense de Letras, MG, julho/2009

terça-feira, 2 de abril de 2013

Fragmento XL

Restauro forças exauridas
pelas privações e abusos da caminhada.
Dirijo o olhar para a relva do campo,
que atapeta meu peito,
e nasce uma flor,

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

sábado, 30 de março de 2013

Fragmento XLI


Arranco as pétalas da poeira do tempo
e a ferrugem das coisas.
Minhas expectativas 
estão deitadas em leitos diurnos,
à espera da lua...

----
Prezadas e prezados,

O livro de poemas Fragmentos Impertinentes já se encontra à disposição. Quem se interessar em obter um ou mais exemplares, gentileza enviar uma mensagem com  nome completo e endereço. Você receberá todas as orientações necessárias.Valor: 20,00

E-mail: profmoisesaugusto@gmail.com

Para quem reside na cidade de Arcos, MG:

Revista e Cia.
Papelaria Criativa

terça-feira, 26 de março de 2013

Poesia no Talo II - Lagoa da Prata, MG



Poesia no Talo é um movimento articulado nas redes sociais, no Centro-Oeste Mineiro, centrado na criação poética, nos versos arrancados dos cotidianos... Tem como idealizador o psicólogo Gabriel Nogueira (orgulhosamente, meu ex-aluno na PUC Minas). Em suas duas versões nas cidades de Formiga e Lagoa da Prata, MG, Poesia no Talo aglutinou centenas de pessoas em torno da poesia, da festa, de outros sentidos possíveis...
Poesia no Talo III está programado para a cidade de Arcos. Aguarde...!

sábado, 23 de março de 2013

Fragmento LXXX



Deixo minhas respostas em banho-maria
por duas luas cheias, no período da quaresma.
Registro nas páginas cinco e seis destes anais,
o meu protesto sem reticências.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes (no prelo)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Alvorecer


Imagem; National Geografic

O dia chega elegante em seu traje de luz,
radiante nos acenos solenes sobre o dorso da mata,
ainda úmida das carícias do orvalho 
que copula em suas folhas.

O sono acorda querendo dormir 
em busca de suas fugas e repouso;
pálpebras cerradas desabrocham nas janelas da alma,
vislumbram o porvir nos raios do primeiro sol.

O café do vizinho entra pelas frestas da porta,
que jamais se fecha, escancarada ao mundo;
servido em minhas narinas, tem odor de horizontes abertos,
sabor próximo ao do hortelã-pimenta das madrugadas,
timidez de pétalas cansadas de flor,
atiradas no colo da terra.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes (no prelo)

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ouvi o grito dos teus olhos
e me fiz silêncios...

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

segunda-feira, 4 de março de 2013

Imagem: Magritte

"Romper as amarras não é o ocaso;
O pássaro que rompe meu peito,
abraça aurora..."

Moisés Augusto Gonçalves, in Ruas vazias de gente

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fragmento XXIV


  

Foto: João Ripper

Minhas armaduras de certezas
 e palavras de ordem ficaram obsoletas.
Aposento modelos e figurinos 
que outrora explicavam o céu e a terra.
Os cenários do agora pedem roupagem nova
e personagem astuto.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes (no prelo)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Muitas luas depois....



Grato pelo encanto, grande Hélder!

Moisés Augusto (Prof. Catatau) 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os primeiros Fragmentos



I

Passei dos cinquenta, vivi muitas vidas.
Visito o coreto da praça 
e rebobino os traçados que me fizeram.
São de carne crua as marcas cravadas nas trilhas sinuosas
dos muitos ais de que me faço.

II

Pego com as mãos molhadas de memórias
as carências e encantos da infância-severina.
Mãe nordestina, rasgando brasis em paus-de-arara.
Pai, matuto mineiro, inteligência forjada nas dores,
calejado de estradas.

III

Saboreei fomes degustadas à força
e a indignação vomitando sobre-mesas.
Espantou-me a miséria sorvida aos goles.
Encantou-me um vir-a-ser cravejado de lutas,
a gabiroba, as flores do campo,
a goiaba do mato e as primeiras letras.

IV

Foram poucos os “troca-trocas”,
muitos os desejos que brincaram reprimidos em mim.
Pari trocados arrancados da venda do esterco,
da lenha despida de gravetos,
da verdura, do ferro-velho,
dos pés-de-moleque, doces e picolés.

V

Deixou-me a infância a marca
indelével da luta cotidiana pelo pão e pelo saber,
a vontade aguerrida de não ser um fracasso,
de lutar pelo humano,
ser um eterno menino a perguntar os porquês,
embalado em seu sonho de gente.

Moisés Augusto Gonçalves in Fragmentos Impertinentes (no prelo)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Impertinências...


Prefácio

Pertencer à situação é o destino natural de quem quer que seja. Mas pertencer à composição de um sujeito de verdade depende de um traçado próprio, de uma ruptura continuada. (Alain Badiou)


Ofereço ao leitor meus fragmentos. Os pedaços que me fizeram possível, até o instante... A matéria que trabalho com as mãos e os fiapos do coração. Que tentei dar formato e sentidos nas muitas luas que vivi. Retalhos que costuro na tessitura da vida. Indagações, respostas provisórias e perplexidades. Um quê de escândalo e irreverências explodindo pelos poros. Impertinentes!

Faltam algumas peças em meu quebra-cabeça e outras tantas que não se encaixam. Por isso mesmo, la nave va... guiada por muitas luas...

Peregrino de muitas estradas, toquei lugares, senti gentes. Cidadãos dos mundos fora e dentro de nós. Precipícios e maravilhas interiores, visitados com intensidade, desbravados com ousadia, lidos com outras razões, as de quem já chegou aos cinqüenta... Tocha grisalha e rebelde. Paisagens tocadas com os dedos dos olhos e as digitais indeléveis do coração. Quase sempre extasiado, dopado de encantamentos e frustrações.

Cenários de muitos tons e injustiças – as que vivi em mim e nos outros - , de muitas vozes e ecos mudos, de muitos sons e possibilidades. Palco de muitos “nós” e “eus” (des-)velados.

Everests escalados sem temores; terra batida, pisada com ternura. Precipícios superados com tremores, sob o luar cândido e a brisa fria. E muitas...muitas...muitas tempestades... E os infernos que vivi...

Fortaleza esculpida na pedra bruta - fragmentada e fragmentária -, convencido de que definitivo mesmo é só a busca apaixonada e persistente; atravessada de encantamentos, coerência que não tem preço; que não se vende no balcão dos negócios; marcada de recusas às negociatas e interesses escusos. Codinome: resistência.

Luta atravessada de amores e utopias sem véus e medidas tacanhas. Batalhas travadas no dia-a-dia de tudo o que balança e respira. Peito aberto, punhos cerrados, mãos estendidas...uma “terra sem amos”...! E já que não pertenço à situação, nem me acomodo à (des-)ordem vigente, vou-me (re-) fazendo a cada instante sobre alicerces de rupturas...!

Moisés Augusto Gonçalves (Catatau)

* O livro Fragmentos Impertinentes será lançado no início de março/2013

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Fragmentos Impertinentes


Prezadas e prezados, 

Lanço em fevereiro meu novo livro de poesias Fragmentos Impertinentes. Segue a Apresentação deste trabalho nas belíssimas palavras do jornalista e escritor, Branco di Fátima.



Apresentação

“Conspiro sempre contra a ordem e sua produção de mortes cotidianas”. Moisés Augusto Gonçalves se apodera das palavras em Fragmentos Impertinentes com a mesma cumplicidade que um tecelão se aproxima dos novelos de linha e do tear. Em uma cena inversa do espetáculo que nos habituamos a chamar de vida, as palavras tomam de brandos o poeta com o ardor das mãos calejadas de um lavrador a plantar o algodão. Preparar a terra. Arar sonhos. Sulcar ideias. Provocações itinerantes, fragmentárias, enredadas pelo laço das ebulições sociais. O próprio deslimite da vida.

A dicotomia da metáfora apresenta este livro como uma breve história das estradas e encruzilhadas que fizeram seu autor possível e, ainda, o fazem na medida em que “a faca que corta não dá talho sem dor”. Nu, despido do osso das vaidades e das molduras etiquetadas da sociedade de consumo, se sente responsável por revelar traços biográficos, autobiográficos, as farpas e ferpas do “amante da festa, do encontro, da justiça e de homens.” Amante da algazarra...

Moisés Augusto escreve para desassossegar corações e mentes ávidos por potencialidades podadas pela raiz, mas capazes de cultivar outros mundos possíveis. Inventável... O maestro oferece a lucidez de uma obra sem data e amarras metrificadas ou com todas as datas... O artifício da rima e os recursos estéticos apregoados pelas vanguardas de outrora não encontram abrigo nesta casa de palavras. O autor prefere o calor das massas nas ruas à frieza dos movimentos literários que não dialogam com os anseios populares. Prefere o encontro barulhento das passeatas ao silêncio das bocas caladas pelos “acordos tramados na calada da noite e das gentes”.

A constatação não impede, no entanto, a construção de um diálogo antropofágico com duas vozes poéticas perturbadoras da ordem vigente. Traços temáticos e estéticos de Fragmentos Impertinentes perseguem os versos livres de Walt Whitman – sem restrições métricas –, e a consciência nômade revolucionária de Allen Ginsberg. Em Uivo (1956), livro mais controverso e censurado da Geração Beat, Ginsberg aponta uma das trilhas possíveis para se interpretar Fragmentos Impertinentes: “Vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, / morrendo de fome, histéricos, nus, / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca / de uma dose violenta de qualquer coisa”.

Seguindo a coerência semântica dos primeiros trabalhos poéticos publicados por Moisés Augusto, como Pra brilhar (1996) e Ruas vazias de gente (2007), Fragmentos Impertinentes é a voz do questionador que insiste em plantar flores no árido campo de batalha. A preocupação, como nos versos de Carlos Drummond de Andrade, é “à sombra do mundo errado, murmuraste um protesto tímido”. Tímido, sim, mas insistente e ensurdecedor. No entroncamento entre frei franciscano e Capetalismo (personagem que Moisés levou para as ruas de Belo Horizonte nos anos 1990) não há espaço para os figurinos da moda ou rótulos das passarelas. Fragmentos Impertinentes é como labirintos de tetas e falos que fortificaram a noite e que atormentam o âmago em dias fugazes. “Misto de dor e gozo.” Inútil como a arte. Belo como a arte. Devorador de fomes.

O universo poético inventado por Moisés Augusto, que pode ser lido aqui como um texto cronológico, poema único, beira em muitos aspectos a saga de um anti-herói glauberiano. A obra aborda fases distintas do escritor que revela “passei dos cinquenta, vivi muitas vidas”. O livro viaja aos primeiros anos da infância dos escritos, “a marca indelével da luta cotidiana pelo pão e pelo saber”. Prossegue pelas descobertas da sexualidade e desilusões com as instituições religiosas como seminarista. A juventude boêmia e militante com “raízes fincadas nas ruas” e a maturidade em que estabeleceu um pacto profundo com a solidão completam a obra. “Meu prazo de validade esvai-se aos poucos na névoa densa do tempo”.

Temas recorrentes como a vida, o ontem, as lutas sociais, a velhice, o futuro, a humanidade, os mecanismos de controle, as injustiças, as instituições de poder e a morte são marcas deste novelo tragicômico de quem, ainda, se considera um estranho “onde quer que vá, em qualquer lugar”. Como quem continua “fazendo chacota dos rituais do poder”, Moisés Augusto confessa, entre lágrimas de alívio e alecrim, “fiz-me encouraçado. Persona non grata. Estrangeiro em meu torrão natal”.

Uma boa dose de cachaça mineira, carne de sol, broa de fubá, urucum e café de fogão de lenha também estão presentes em Fragmentos Impertinentes. É em Cordisburgo, terra do escritor Guimarães Rosa, que Moisés Augusto Gonçalves busca o eu mais que profundo. Entre o clarão das lamparinas a querosene e o canto noturno do urutau, às margens do Córrego do Onça, aos braços lânguidos da “sozinhiidão”, este livro dialoga intimamente com a construção de um sujeito de rupturas continuadas. Acostumado com as entranhas e estranhezas de Minas ou por elas desacostumado a compactuar com os muros da vergonha. Fragmentos Impertinentes é “uma epígrafe no epílogo da vida”.

Dublin, Irlanda/Lisboa, Portugal
Fevereiro de 2013

Branco Di Fátima
Jornalista e Escritor

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


Foto: João Ripper

Até quando beijarão nossos lábios
 
- colados ao chão -
 
utopias abortadas?
 
Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Noite fecunda...



É noite de chuva fina
de orquestra sapônica,
ninando o brejo,
o dorso da serra,
os mistérios da mata
e meus bocejos.

É noite de fina chuva
abrindo beijos em meus jardins;
vermelhos, roxos, laranjas
e aqueles brancos, tão raros
quanto a sinceridade dos homens.


Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Doce repouso...


Foto: Márden Moreira de Carvalho

O dia adormeceu em meus olhos...
Tronco, sol, areia, mar...
Bailar de ondas que ninam um vulcão!

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Tanta...



Foto: Sebastião Salgado

A minha loucura não cabe nos livros,
zomba solteira dos ids e egos;
Visita o Olimpo,
transita o nirvana;
Celebra entre lágrimas os naufrágios do amor.
A minha loucura é louca demais,
é insana;
Tem sabor de pão dormido,
é tanta...Tanta...Tanta...!

Moisés Augusto, in ruas vazias de gente

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Especialíssimos...


Imagem: Kaveh H. Steppenwolf

Os contados nos dedos são amigos;
Anéis que compõem minhas digitais,
menestréis de minha alegria,
rimas de meu verso sem rimas esculpidas.
Faróis de minhas noites de mares bravios
e da sofreguidão de minha inquietude.

Eu que vivi naufrágios e conquistas,
aportei muitos cais, 
zarpei sem demoras.
Bailei ao som de Mozart e Engenheiros do Hawaí,
de Clementina de Jesus e Cazuza.

Na soleira da porta, 
aguardo um telegrama.
O amor se foi, 
deixando um rastro iluminado
de saudades que insistiram em ficar
e sua pose nua,
 envolta em gelo seco.

Calejado pela vida,
rompi certezas e embalagens coloridas.
Tranquei a sete chaves
meu baú de rótulos prontos e tabelados.
Devolvo ao vento as pedras
que me atiraram e seus estilhaços.
Ninguém é meu alvo ou todo mundo.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Indagações



Quantos silêncios ainda faltam para a próxima fuga?
Quantas fugas ainda faltam para o próximo silêncio?
Largados nas esquinas,
até quando beijarão nossos lábios
- colados ao chão - utopias abortadas?
Bradará a língua ensandecida torpes palavras?
E o canto livre, sucumbirá ao vil poder?
Importa buscar na cadência das ondas
sentidos que não vivi?
De quantas pauladas se faz uma vida?
Quantos detalhes compõem o presente?

Felicidade perambula solteira?
Meu coração em vigília aguarda um simples aceno...

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

No cais desta vida....


Levanto âncoras de pés virgens de estradas e rumos,
cravados ao chão perderam horizontes, tempos e rimas.
Não viram zarparem os navios carregados de gentes
e esperanças que se foram,
embaladas em adeuses sem retornos.

No cais desta vida,
sou a lânguida e última fornalha acessa,
insisto em ficar acordado,
incandescente e alerta,
à espera do barco,
da lenha,
do sussurro no ouvido,
das mãos bailarinas deslizando
nas curvas suaves do gozo de ter-te.

Moisés Augusto Gonçalves, in ruas vazias de gente

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Alguém que deixou num muro qualquer, 
o sentimento que me atravessa.

Moisés Augusto (Catatau)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Imagem: Pierre Verger

Às vezes eles pensam que matam a gente... Besteira, a gente não morre. É só uma agonia boba, dessas que dão forma e sabor à vida. Aliás, a gente tem mais que sete vidas: abraçamos as causas que não conhecem a morte!  Abraço que faz ser um só e por isso todos... 

Ossatura forjada no calor das lutas, com seus prazeres e dissabores. Longa história de muitas vitórias e outras tantas derrotas que tingiram de vermelho as trilhas que pisamos com pés de pluma, peito aberto, horizonte em flor e uma vontade danada de arrancar alegrias ao futuro.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

sexta-feira, 2 de novembro de 2012



"Romper as amarras não é o ocaso;
 O pássaro que rompe meu peito 
abraça a aurora...." 

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos Impertinentes

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Cidadão dos mundos...


Imagem: National Geografic

Carrega no alforje da vida muitas sementes,
páginas em branco no caderno de memórias
- outras tantas rasgadas nas bordas,
outras muitas rasgadas ao meio -,
um pedaço de fruta mordida de véspera,
um catálogo de nomes escritos até à primeira letra.
Maiúsculas. Em negrito solo.
De que não se sabe quem.
Fortes! Como cabe aos que partem, insistindo em ficar.

Homem de uma nota só e muitos tons,
possuído pela magia célere dos pássaros,
dos amores des(re-)feitos,
das incógnitas do daqui-a-pouco,
da terra pisada com pés de pluma,
ninada no colo com cantos de mãe.

Parto doloroso do quero-mais,
das alegrias de visita breve,
da descoberta mostrando a cabeça,
por detrás da montanha de papel machê.
Encontro marcado aos pés do ipê amarelo;
Tez desnuda,
escaldada pelo sol das tardes que se repetem.
Fardo de muitas labutas e encantamentos!

Penduradas no peito,
medalhas conquistadas no campo de batalha
contra a penúltima fome e suas primas,
as estátuas do medo plantadas na curva da estrada.
Saudades do abraço de não-se-sabe-quando,
mágoas com barba por fazer,
botões em flor aguardando o primeiro raio de sol.


Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes

terça-feira, 16 de outubro de 2012



O casebre de minha poesia
é feito de versos de adobe e suor,
barro amassado,
ritmado de pés e muitas histórias.
Telhado de sapê e lua cheia,
chão de terra batida,
janela rasgada no peito aberto,
acabamento rústico.

Moisés Augusto Gonçalves, in Fragmentos impertinentes